pelos 30!

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Descubra-te a ti mesmo...


>>> Por três minutos, tentei explicar a confusão de minha cabeça; no entanto, nem eu mesmo sabia como dizer o que pensava daquilo tudo. Petro olhava para o asfalto ainda agachado, buscava desenhar com o bico do sapato a sombra de minha cabeça. Juro que eu queria entender o que pensava ele também. Tirou um cigarro, tentou várias vezes acender o isqueiro. Sem fogo, sem gás! Atirou-o ao longe.
“Ei! Você está louco? Acertou em mim!”- retrucou o guri com skate na mão, retribuindo o gesto ofensivo. Tinha razão. Desviei do objeto quando veio contra mim.
“Foi mal!” – ele disse – “queria atirar no outro palhaço gêmeo”.
“Você descarrega a ira no garoto?”
“Pedro, o que você acha de tudo isso?”
“Não acho nada, apenas estranho. Tenho algumas hipóteses. Há exatos dois anos eu estava para fazer 30. Eu nunca me importei com aniversários. Quando alguns amigos me cobravam uma cerveja, sei lá, um gesto comemorativo, eu evitava. Quantas vezes eu preferi me esconder. Achava ridículo tudo aquilo. Mas nessa época era diferente: faltavam dois dias para dobrar minha quinzena. Vinte nove assopros de vela, isso era ridículo. para mim. Então Rafael Lins, um dos amigos de infãncia, me liga e diz: cara, hoje é seu aniversário, parabéns., eu não posso esquecer. Dez minutos e estarei aí...”
“Sim, aonde você quer chegar? Onde entro nessa história?”
“Daí Rafael aparece. Era um amigo de muito tempo, mas fazia oito que não nos víamos. Estava diferente, mantinha a mesma juventude de quando o vi pela última vez. Incrível! Meio sonhador também. Disse que tinha pouco tempo por ali, estava em um evento acadêmico. Resolvera me ver... Quem lhe deu meu novo número? Nunca soube, nem perguntei. Resolvemos sair com alguns outros colegas da cidade. Só eu o conhecia...”
“Diz logo, cara! Aonde você quer chegar?”
“... ele disse que precisava falar comigo, me ver, pois, naquele dia, seu irmão - que muito se parecia comigo - fazia aniversário. Porém, fazia dois anos que o suposto havia sido assassinado. Me arrepiei, é como se ele anunciasse minha morte com essa notícia. Eu sinto muito, eu disse. Ele sempre se referia ao irmão comparando a mim, tinha essa mania inquietante. Mas o irmão, segundo ele, morava com a mãe. Ele, com o pai. Minutos depois dessa conversa, alguém liga para ele, que se despede de mim com um abraço bem forte dizendo “queria sentir o cheiro do abraço que meu irmão não teve tempo de me devolver.” Suei frio, e o larguei.
“O que isso tem a ver comigo, Pedro?”
“Cara, as hipóteses são as seguintes: ou ele estava mentindo com a história da morte do irmão; ou ele matou o irmão ao insinuar um abraço; ou ele nunca teve irmão, e a mentira era a forma de alimentar um desejo marcado na falta, na ausência; ou, decerto, sempre falou a verdade e, nesse caso, o irmão dele é você. Eu não vejo outra saída!”
“Você está louco! Você é louco, Pedro...você é patético! Onde você aprendeu a enrolar uma história não te ensinaram que enredo mal contado enforca o autor na incoerências das palavras?”
“O problema agora, Petro, não é mais meu... descubra-te a ti mesmo!”
Ele enraivecido nem se despediu, atirou o celular ao alto acertando a vidraça de um prédio. Estilhaços no chão; fingi que não vi. Certamente era para que eu nunca mais lhe ligasse, mas esqueceu-se que pela manhã havia me enviado um email.
O sol ainda forte lá ao longe e um vento frio pelas esquinas da cidade. Se o ar tivesse cores naquele isntante, eu veria um vento vermelho fazendo curvas por onde ele passava. Poderia seguir seu cheiro de cigarro molhado. Mas agora era diferente, o aroma era diferente, eu poderia sentir isso ainda ali. Vi-o se camuflando aos poucos entre um passante e outro, enquanto ele jogava cigarros pelo chão até perder-se na multidão. Era como se eu tivesse ali perambulando até me ver perdido na multidão. Conhecer alguém que carrega nossos traços nos leva a encarar a nós próprios como seres desconhecidos, patéticos; é ver como nos conhecemos pouco.
Eu havia mentido. Não sobre as hipóteses, mas sobre o que disse ao reescrever a frase socrática. O problema não era só dele, era tão meu quanto do Petro a partir daquele instante. Justo eu que pensava que me conhecia bem. Pedro Lins. Qual mistério estava em torno de meu sobrenome? De nossos três sobrenomes...